A série “Adolescência” da Netflix, com seus quatro episódios, é um retrato realista da turbulência emocional, social e comportamental que marca essa fase da vida. Jamie, protagonista da série, apresenta comportamentos extremos, impulsivos e, muitas vezes, incompreendidos pelos adultos. Segundo o ator e co-criador da produção, Stephen Graham, Ele explicou que a trama é inspirada em uma história que ele viu na mídia sobre um jovem envolvido em crimes com faca.
Episódio 1: O Dia do Crime
Nesse episódio, Jamie é surpreendido por uma acusação de assassinato. Sua expressão de choque, negação e confusão pode ser analisada associando sua expressão a características peculiares da adolescência: a instabilidade da regulação dos comportamentos adaptativos e a consequente e inerente vulnerabilidade, tanto do indivíduo como um todo, quanto da formação cerebral dos jovens, ainda em desenvolvimento.
A adolescência pode ser especialmente vulnerável, inclusive no que diz respeitos ao cometimento de erros de julgamento e comportamento impulsivo; em parte, isto acontece porque as funções executivas ainda continuam em desenvolvimento durante essa fase. Além disso, a transição para a adolescência é frequentemente acompanhada por um novo conjunto de responsabilidades desafiadoras e exigências de autorregulação, por exemplo, nas esferas educacional e social o que requer uma maior dependência do controle cognitivo emergente.
No entanto, neste período a maturação cerebral, e em especial a região denominada como córtex pré-frontal, ainda é altamente dinâmica, ou seja, em constante mudança por conta da fase de desenvolvimento estruturar e funcional. Neste sentido é marcante o desenvolvimento ainda contínuo das redes frontais, estruturas que desempenham um papel importante nas funções executivas, e aspectos da cognição social, os quais são cruciais para comportamentos adaptativos orientados por metas. As funções executivas, como o controle inibitório, a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva, amadurecem em paralelo ao desenvolvimento do córtex pré-frontal, e são fundamentais para que o indivíduo atue com responsabilidade, regule suas emoções e tome decisões de forma adaptativa. Esse processo durante a adolescência é gradual e incompleto, o que torna os jovens propensos a atos impulsivos e compromete a capacidade de julgamento.
Assim, podemos inferir que quando Jamie é acusado de assassinato, no momento deste episódio, ele tem comprometida sua capacidade de ajustar o comportamento de forma apropriada. Sua capacidade de julgamento, tomada de decisão e raciocínio lógico, por exemplo, também ficaram prejudicadas. Considerando que em adolescentes as estruturas frontais ainda estão em desenvolvimento, passando de forma continuada por reorganização estrutural e funcional, a capacidade de avaliar consequências e tomar decisões maduras em situações de estresse extremo ainda é instável. Estruturas associadas às emoções e comportamentos inatos, por exemplo, a amígdala, envolvida nesta resposta emocional, está hiperativa nessa fase, e também sua “comunicação” com o córtex pré-frontal ainda relativamente imatura; desta forma, respostas exacerbadas relacionadas por exemplo, as reações de medo e raiva podem ocorrer, assim como atitudes com alto grau de impulsividade, e sem o autocontrole apropriado e identificação das consequências.
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O homem deve saber que de nenhum outro lugar, mas apenas do encéfalo, vem a alegria, o prazer, o riso e a diversão, o pesar, o luto, o desalento e a lamentação. E por isso, de uma maneira especial, nós adquirimos sabedoria e conhecimento e enxergamos e ouvimos e sabemos o que é justo e injusto, o que é bom e o que é ruim, o que é doce e o que é insípido… E pelo mesmo órgão nos tornamos loucos e delirantes, e medos e terrores nos assombram…Todas essas coisas nós temos de suportar do encéfalo quando não está sadio… Nesse sentido, opino que é o encéfalo quem exerce o maior poder sobre o homem.
— Hipócrates, Sobre a Doença Sagrada (Séc. IV a.C.)