Quando passamos por experiências associadas à estímulos salientes, identificadas pelo cérebro como situações estressoras, ou seja, situações que por algum motivo geram fortes respostas emocionais, estas ficam gravadas em nosso cérebro – portanto, memorizamos! Nestas situações memórias emocionais se consolidam, um significado emocional é adicionado a um contexto e reações condicionadas podem se estabelecer, desencadeadas por estas experiências estressoras. Ou seja, APRENDEMOS!
Uma das emoções mais conhecidas por nós, e uma, se não a mais investigada pela ciência, é o MEDO. Sim, aprendemos a ter medo, e a base neural do medo concentra-se em estudos do condicionamento ao medo. Essa abordagem tem sido particularmente bem-sucedida em identificar o sistema neural que medeia o medo aprendido e em revelar alguns dos mecanismos celulares que podem estar envolvidos. Podemos desenvolver o medo a uma condição específica, por exemplo, medo de água do mar ou de piscina. Nosso cérebro processa essa informação e gera uma resposta emocional associada à preservação da vida. O medo condicionado.
Nesse contexto, sempre que me exponho a essa condição, sinto medo, pois a memória emocional foi consolidada. O cérebro identifica esta situação e integra respostas adaptativas a esta situação, determinada “por ele” como estressora, com o objetivo de proteger o sistema; o cérebro busca estratégias para salvaguardar o bem-estar físico, mental ou social, criando um padrão comportamental de resposta que, dependendo do ponto de vista, muitos chamam de “bloqueio”.
Podemos entender o “bloqueio”, como um comportamento típico de condicionamento a um determinado contexto; a experiência modificou nossa atividade neural, aprendemos a ter medo daquela situação. Um comportamento condicionado se estabeleceu. Esse tipo de aprendizagem envolve principalmente estruturas subcorticais como a amígdala, responsável pelo processamento de emoções, e o hipocampo, que auxilia na formação e recuperação de memórias (memória amigdalar e hipocampal). O hipocampo pode transmitir à amígdala entradas ambientais relacionadas ao contexto de condicionamento, onde o significado emocional é adicionado ao contexto, assim como é adicionado às informações sensoriais talâmicas ou corticais. Uma vez aprendido, esse tipo de condicionamento ao medo contextual pode permitir que o organismo diferencie entre as situações em que é apropriado se defender contra um estímulo e aquelas em que isso não é necessário.
Mas, e se nosso comportamento estiver consolidado de tal forma que mesmo em situações em que não precisaríamos nos defender do estímulo, ou ainda, que não precisaríamos nos comportar de maneira a evitar aquela situação, ou mesmo, que tal comportamento estivesse nos privando de lidar apropriadamente com os desafios do nosso dia a dia, nos “bloqueando”? podemos aprender de novo? Podemos modificar as memorias para aquela situação? Ou são memorias indeléveis, fixas, que não podem ser alteradas? Não podemos desbloquear? Nosso medo é condicionado e voltando ao meu exemplo com a água, sempre que estiver exposta a situações relacionadas à água, essas estruturas subcorticais são ativadas com base em experiências passadas, funcionando em um nível “inconsciente”, ou seja, respondemos mesmo antes de termos consciência do contexto. . A memória nesta situação parece fixa, difícil de ser alterada, mas sim, podemos aprender de novo e modificar. Ao tomar consciência desse comportamento condicionado e o padrão emocional envolvido, o primeiro passo é decidir reorganizar minhas estruturas neurais por meio de treinamento; dou início a uma mudança que vai envolver áreas corticais que podem regular diferentemente o nosso comportamento. . Por meio de novas experiências e práticas, consigo criar novas aprendizagens e estabelecer um novo condicionamento. Estamos falando de extinção do comportamento condicionado para a “substituição” por um novo comportamento aprendido. A extinção, nesse contexto, pode ser um processo pelo qual o córtex regula a expressão dessas memórias indeléveis.
Há evidências de que a extinção do medo condicionado não ocorre de forma passiva (ou seja, a memória persiste na ausência de treinamento explícito de extinção) – portanto, preciso ter a intenção de modificar e direcionar ações de treinamento para isto! e, quando a extinção ocorre, não se trata de um esquecimento passivo, mas sim de um processo ativo, possivelmente envolvendo um novo aprendizado. Além disso, preciso reconhecer que as reações de medo condicionado são difíceis de extinguir e, uma vez extintas, podem reaparecer espontaneamente ou ser reinstauradas por experiências estressantes. Preciso ser resiliente! Preciso mudar, e também reconhecer que esta mudança, que exige resiliência é necessária para o meu bem-estar, pois os processos de condicionamento ao medo podem contribuir para transtornos como fobia, medo excessivo, ansiedade, e pânico – SE EU ME APAVORAR, EU AFUNDO!
Mas como esse processo de extinção e um novo aprendizado ocorre? Esse processo é mediado pela neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro de se reorganizar estrutural e funcionalmente em resposta a estímulos e experiências. Este aprendizado ocorre pela plasticidade em diferentes locais e desempenha funções distintas. Em termos práticos, a plasticidade denota a mudança associada a estímulos. Por exemplo, a plasticidade nas estruturas sensoriais pode tornar o processamento dos estímulos mais eficiente; a plasticidade nos sistemas motores pode tornar a execução das respostas mais eficiente; e a plasticidade na amígdala pode representar os aspectos integrativos (independentes de estímulos e respostas) do aprendizado. Sim, por isso podemos aprender, por isso podemos mudar, por isso podemos extinguir comportamentos deletérios ao meu bem-estar.
Dois mecanismos-chave da neuroplasticidade explicam essa mudança: a LTP (Potenciação de Longo Prazo) e a LTD (Depressão de Longo Prazo). LTP: é o fortalecimento de conexões sinápticas que ocorre quando essas conexões são repetidamente ativadas de forma eficiente. No contexto de aprendizado e treinamento, o LTP é responsável por aumentar a comunicação entre os neurônios, criando vias mais robustas para armazenar novas memórias e habilidades. Por exemplo, ao praticar natação de forma segura e controlada, o LTP ajuda a consolidar novas associações positivas com a água. À medida que novas experiências seguras são repetidamente praticadas, o LTD (Depressão de Longo Prazo) enfraquece as vias sinápticas associadas à memória emocional negativa, permitindo que o cérebro substitua esses padrões por outros mais adaptativos.
Esses dois mecanismos trabalham em conjunto para promover a reorganização neural (LTP e LTD). Ao longo do treinamento, o cérebro começa a remodelar (neuromodulação) suas redes sinápticas. O fortalecimento das novas conexões (LTP) e o enfraquecimento das antigas (LTD) resultaram em mudanças tanto na estrutura quanto na função cerebral. Com a prática constante, essas mudanças tornam-se mais permanentes, permitindo um novo comportamento condicionado.
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O homem deve saber que de nenhum outro lugar, mas apenas do encéfalo, vem a alegria, o prazer, o riso e a diversão, o pesar, o luto, o desalento e a lamentação. E por isso, de uma maneira especial, nós adquirimos sabedoria e conhecimento e enxergamos e ouvimos e sabemos o que é justo e injusto, o que é bom e o que é ruim, o que é doce e o que é insípido… E pelo mesmo órgão nos tornamos loucos e delirantes, e medos e terrores nos assombram…Todas essas coisas nós temos de suportar do encéfalo quando não está sadio… Nesse sentido, opino que é o encéfalo quem exerce o maior poder sobre o homem.
— Hipócrates, Sobre a Doença Sagrada (Séc. IV a.C.)