Em um desses dias, fui ao monte em São Bento do Sapucaí, no interior de São Paulo, e ali recebi uma palavra direcionada por Deus: o livro de Ester, um texto atemporal registrado em um código milenar, a Bíblia Sagrada (King James, 1611). Ao retornar para casa, li esse livro duas vezes. Foi na terceira leitura, já inserida na minha rotina de leitura matinal, que um trecho tocou profundamente o meu coração. No primeiro capítulo, uma frase me saltou aos olhos: “o vinho real era servido em diferentes taças de ouro.” Aquilo me prendeu e me levou a investigar mais profundamente qual seria a mensagem por trás dessa imagem, aparentemente simples, construída em meu cérebro/encéfalo, a taça de ouro.
Ao mergulhar no contexto da época, descobri que as taças não eram apenas recipientes, eram verdadeiras obras de arte moldadas por ourives, artesãos habilidosos que, para formá-las, usavam o processo de martelamento, golpe a golpe, para dar forma ao ouro bruto. E não parava por aí. Para torná-las ainda mais valiosas, as taças eram adornadas com diferentes metais e pedras, que só podiam ser fixados por meio de perfurações precisas no próprio ouro. O conteúdo, o vinho real, porém, era o mesmo para todos, mas cada taça era única, moldada com esforço, marcada pelo fogo e pela pressão, e ainda assim digna de conter algo tão precioso.
Diante desse cenário que se formava em minha imaginação, e imersa nessa reflexão, percebi-me buscando, além do que Deus me revelava no plano espiritual para aquele momento, compreensão também sob a perspectiva da neurociência. Foi então que vieram as imagens do martelamento, da fixação dos metais e das pedras por meio de perfurações, moldando, de forma única e singular a partir das experiências inerentes a cada processo, taças distintas para o vinho. Ou ainda: o cérebro como essas taças, exposto às experiências, transformando-se a cada martelada, a cada fixação, a cada perfuração. Um cérebro plástico, sendo continuamente moldado e modulado por Deus. Taças formadas de maneira única e, ao mesmo tempo, moldando comportamentos que, por sua vez, retornam para modular novamente essas “taças”. A mente modulando o cérebro; o cérebro modulando o comportamento; o comportamento modulando e sendo modulado pelas respostas fisiológicas. As experiências, enfim, modulando o meu eu.
As experiências modelando meu comportamento, o comportamento e o meu eu sendo moldado pelas experiências; a modelação do meu eu, a partir das mudanças funcionais e estruturais cerebrais decorrentes da plasticidade neural. A mente modulando o cérebro. O cérebro plástico, respondendo às demandas, as marteladas, às perfurações.
Na neurociência, abordamos esse fenômeno considerando que a plasticidade descreve a capacidade do sistema nervoso de adaptar sua estrutura e função em resposta a demandas ambientais, experiências e mudanças fisiológicas. Tem sido observado que o cérebro humano mantém um nível basal de plasticidade ao longo da vida, e é este processo que é conhecido como plasticidade dependente da experiência. O processo que fundamenta todo o processo de aprendizagem. Curiosamente, essa mesma ideia já estava expressa nas Escrituras quando o apóstolo Paulo escreveu: “não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Romanos 12:2). A renovação descrita no código milenar não se refere a um evento pontual, mas a um processo contínuo de transformação, no qual a mente é remodelada e, com ela, o modo de perceber, decidir e viver. Assim, o que hoje compreendemos como plasticidade neural, a Bíblia já reconhecia como um princípio espiritual de transformação progressiva do ser.
Essa imagem (taça de ouro), para mim, resumiu com perfeição a minha trajetória. Compreendi que cada fase da minha vida, as alegrias, as tristezas, as conquistas, as rejeições, os estudos, as dores, os desafios, a escassez financeira em alguns momentos, o desacreditar dos meus pares, as madrugadas sem dormir, as perdas dolorosas, os desafios familiares, esportivos e acadêmicos foram, na verdade, martelamento e perfurações que me moldaram como uma taça de ouro. Que moldaram o meu cérebro, e continuam a fazê-lo. Que moldaram e modularam meus comportamentos, que por sua vez, continuam a trazer novas experiências, gerando aprendizado, modificando o meu eu (renovação da minha mente). As experiências, as marteladas, as perfurações, os processos conscientes e inconscientes automaticamente traduzidos em processos neurais nos vários níveis de organização cerebral; os quais, por sua vez, traduzidos para processos e eventos em outros sistemas fisiológicos, como o sistema imunológico e endócrino. A experiência, as relações mente-cérebro e sistemas corporais. E ao longo do tempo, as experiências da fé, da oração, da conexão, me moldando. Me impulsionando para uma abordagem da neurociência espiritual. O poder da fé, poderia ser explicado?
Se os processos mentais afetam o cérebro e o corpo, podem então conduzir o corpo para o estado saudável e para o enfermo. Se as experiências modulam nosso eu, afetando o “controlador” (o cérebro) e por sua vez, modulando as respostas fisiológicas e comportamentais, a experiência da fé e da oração poderia, em tese, afetar o meu eu. Ainda, cada dor, cada superação, cada renúncia pode ser uma marca preparando o indivíduo para o propósito. O cérebro espiritual sendo preparado para o propósito que Deus reservou para mim?
Se os processos acerca da plasticidade estão bem estabelecidos, se é difícil de se refutar o efeito dos processos mentais, como a vontade, metas, emoções, desejos e crença na atividade cerebral, os quais, são representados em nível neural, porém, não podem ser reduzidos a processos neuroelétricos e neuroquímicos, não são passiveis de localização no cérebro, e não podem ser eliminados, então podemos especular que não há uma maneira de apreender os pensamentos e a força destes apenas pelo estudo da atividade dos neurônios. Como adverte Beauregard, “ninguém jamais viu um pensamento ou um sentimento, mas eles exercem tremendo impacto em nossas vidas”. Assim, a questão que emerge é: a fé e a oração poderiam exercer tamanho impacto em nossas vidas?
Oração o que acontece no cérebro?
Durante a oração, várias estruturas cerebrais são ativadas. Neste sentido, o sistema límbico, especialmente a região mesolímbica (via de recompensa) parece desempenhar um papel central. Nesta área, ocorre a liberação de substâncias importantes que promovem sensações de pertencimento e bem-estar, melhorando, por exemplo, a autoestima. Este processo é comprovado cientificamente. Além disso, a oração pode estimular a liberação de neurotransmissores como dopamina, vasopressina, norepinefrina e cortisol, que têm efeitos variados, incluindo o aumento do prazer e a resposta de luta ou fuga. A serotonina, associada, entre outros, as alterações dos estados de humor, também pode ser afetada positivamente pela oração.
Especificamente, diferentes partes do cérebro, como o lobo frontal (associado à concentração e atenção) e o lobo parietal (responsável pela percepção sensorial e formação da identidade), são ativadas ou inibidas durante a oração. O lobo parietal, quando sua atividade é reduzida, pode diminuir nosso senso de identidade pessoal, levando a uma sensação de união ou conexão maior com o mundo ao redor. Enquanto isso, o lobo frontal, ao permanecer ativo, pode ajudar a manter o foco e a atenção durante a oração. Estas mudanças na atividade cerebral durante a oração podem explicar como ela ajuda as pessoas a lidar e suportar melhor as adversidades. Além disso, a oração pode ter um efeito calmante e reduzir sintomas de ansiedade e depressão, influenciando a frequência cardíaca, a pressão arterial e a função imunológica através da redução de hormônios do estresse.
Estudos na temática, sugerem que a experiência espiritual, incluindo a oração, ativa os lobos pré-frontais do cérebro, que estão conectados ao sistema límbico. Isso indica que um ambiente estruturado pela fé e espiritualidade, deixa uma marca biológica em nosso cérebro e facilita a redescoberta de sentimentos de êxtase ou transcendência. Além disso, a repetição de rituais ligados a experiências místicas, espirituais ou religiosas, como a oração e a sensação de conexão com algo maior, pode ter um valor reconfortante e encorajador, fortalecendo o senso de pertencimento e reduzindo a ansiedade.
Essas descobertas mostram uma interseção fascinante entre fé, neurociência e bem-estar psicológico, indicando que a oração não apenas atua em um nível espiritual ou emocional, mas também tem efeitos concretos e mensuráveis no funcionamento do cérebro e na saúde mental e física das pessoas. É importante destacar que a experiência individual pode variar significativamente, dependendo das práticas específicas da oração, da duração da prática, das crenças pessoais do praticante e do contexto cultural. Além disso, a neurociência da espiritualidade e da religião ainda é um campo em constante evolução, com novas descobertas surgindo regularmente.
Um estudo paradigmático neste sentido foi publicado em 2006, por Beauregard e Paquette. Intitulado, Neural correlates of a mystical experience in Carmelite nuns (Neurosci Lett. 2006;405(3):186-190. doi:10.1016/j.neulet.2006.06.060). Este estudo é um marco na neurociência espiritual, explorando como experiências subjetivas profundas se manifestam fisicamente no cérebro, e teve como objetivo principal identificar os correlatos neurais de uma experiência mística.
Os pesquisadores buscaram entender quais regiões do cérebro são mediadoras do estado de “união com Deus”, característico do misticismo cristão, em freiras carmelitas. Técnicas de Ressonância Magnética Funcional (fMRI) e EEG foram utilizadas em 15 freiras carmelitas contemplativas, analisadas em uma condição “mística” (as freiras deveriam relembrar e reviver a experiência mística mais intensa de suas vidas. Esta estratégia foi usada porque, segundo as freiras, “Deus não pode ser convocado à vontade”), uma condição controle (relembrar e reviver o estado mais intenso de união humana já sentido) e uma condição baseline (linha de base), caracterizada pelo estado de repouso normal, de olhos fechados. Foram utilizados questionários (Escala de Misticismo) e entrevistas qualitativas após o experimento para confirmar que o estado atingido durante o registro dos dados pela fMRI era, de fato, uma experiência mística genuína.
O estudo revelou que a experiência mística não ocorre em um único “ponto de Deus” no cérebro, mas envolve uma rede complexa de várias regiões, com destaque para o córtex orbitofrontal medial direito (relacionado à percepção de que a experiência é emocionalmente agradável e prazerosa). A ativação do orbitofrontal medial direito sugere que a oração profunda é processada pelo cérebro como algo intrinsecamente prazeroso, similar à forma como reagimos a estímulos de beleza e recompensa. Adicionalmente, observou-se atividade incrementada no córtex temporal medial direito, que poderia ser associado à impressão subjetiva de contato com uma realidade espiritual, sendo assim, o “mediador da sensação de contato com uma realidade espiritual”, dando sentido à experiência subjetiva.
Também se verificou o incremento da atividade na condição estado contemplativo, nos lóbulos parietais (superior e inferior), que são ativados devido a mudanças no esquema corporal, explicando pelo menos em parte a sensação descrita pelas irmãs carmelitas de “ser absorvido” por algo maior e a perda da fronteira entre o “eu” e o “divino”. Ainda, foi observada atividade significante no córtex pré-frontal medial esquerdo (associado à consciência dos próprios sentimentos e estados emocionais) e córtex cingulado anterior esquerdo, envolvido na detecção de sinais emocionais internos (interocepção).
Para além das área corticais citadas, também foi possível identificar atividade incrementada em áreas subcorticais no estado contemplativo, como o núcleo Caudado (Bilateral), frequentemente ativado em estados de alegria, felicidade e amor incondicional, tronco encefálico (relacionado às mudanças somatoviscerais; reações físicas do corpo que parecem acompanhar a paz e o amor infinito relatado pelas freiras), e a insula esquerda, que integra sensações internas e externas, mapeando a resposta física às emoções profundas. Se Deus é amor, então a experiência de estar com Ele modula o cérebro humano por meio de redes neurais associadas ao prazer, ao sentido, à consciência emocional, à dissolução do ego e ao amor incondicional, reorganizando mente, corpo e identidade em direção à paz, à integração e à transformação do eu.
Fé, oração e Neurociência: cabe uma reflexão?
A luz da neurociência, este estudo demonstra que a fé e a oração não são apenas conceitos abstratos, mas processos que engajam ativamente a biologia humana. Este estudo paradigmático sugere que a oração é uma experiência multidimensional. A oração profunda (especialmente a contemplativa) parece de fato ativar áreas de cognição, emoção e percepção sensorial simultaneamente. A ativação do córtex parietal sugere que a oração pode alterar a percepção de espaço e tempo, facilitando o sentimento de “transcendência” que os crentes descrevem há séculos. Ainda, os autores ressaltam um ponto ético e científico fundamental: mapear os correlatos neurais de uma experiência religiosa não confirma nem refuta a existência de Deus. O que a ciência revela é que o ser humano parece possuir um “aparato biológico” equipado para vivenciar e processar o que por vezes é definido como sagrado. As taças únicas moldadas para o propósito?
O “eu” e o todo
Um dos aspectos discutidos no artigo sobre é a sensação de ser “absorvido por algo maior”. Os resultados poderiam ajudar na explicação desse fenômeno através da modulação dos lóbulos parietais. Como essas áreas estão associadas à nossa percepção de espaço e de esquema corporal, a ativação incrementada (vs. controle e baseline) durante a oração mística poderia refletir uma alteração real na fronteira física; ou seja, o “eu” se modificando (se dissolvendo?) para dar lugar à união com o infinito.
A ativação do tronco encefálico, da ínsula e do núcleo caudado sugere que sentimentos de paz incondicional e alegria profunda geram respostas físicas reais — alterações nos sinais somatovicerais e autonômicos. O cérebro poderia estar mapeando o amor de Deus através dos mesmos sistemas que processam as emoções humanas mais elevadas, como o amor materno e romântico?
As inferências deste estudo e da literatura atual podem induzir as seguintes indagações: o ser humano pode ser biologicamente “equipado” para a transcendência? Os achados mostram que de fato a oração mística não é um estado de passividade, mas uma atividade mental e cerebral que engaja áreas de autoconsciência (Córtex Pré-frontal Medial) e detecção emocional interna (Córtex Cingulado Anterior)? Contudo, é crucial notar que identificar os correlatos neurais da fé não significa reduzir Deus a um neurotransmissor. A neurociência não confirma nem refuta a existência de Deus; ela apenas nos mostra o impacto profundo e transformador que a busca pelo sagrado exerce sobre a arquitetura do cérebro humano. No fim, a biologia apenas confirma o que os servos e servas de Deus dizem há milênios: a experiência de Deus altera o observador por inteiro. As taças continuam a serem moldadas e perfuradas, de forma única.
Uma mensagem…
“A taça nunca é moldada para exibição, mas para servir. Não para conter qualquer vinho, mas o vinho real” (Ester 1). Essa imagem simbólica converge com o princípio bíblico segundo o qual “cada um exerça o dom que recebeu para servir aos outros, administrando fielmente a graça de Deus” (1 Pedro 4:10). Evidencia-se, assim, um chamado que não se restringe ao campo espiritual nem se limita ao científico, mas que emerge de uma integração entre fé, experiência e propósito. Trata-se de uma existência na qual os diferentes níveis da experiência humana alma, corpo e espírito não competem entre si, mas se organizam (neuroplasticidade) de forma coerente sob a soberania de Deus. À luz dessa perspectiva, a afirmação de que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8:28) deixa de ser apenas uma declaração de consolo e passa a ser compreendida como um princípio organizador da trajetória humana. Por fim, permanece uma convicção bíblica fundamental, simultaneamente simples e profunda: “Aquele que começou a boa obra em vós há de completá-la” (Filipenses 1:6). As taças continuam a ser moldadas. E Deus permanece soberano sobre o processo.
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O homem deve saber que de nenhum outro lugar, mas apenas do encéfalo, vem a alegria, o prazer, o riso e a diversão, o pesar, o luto, o desalento e a lamentação. E por isso, de uma maneira especial, nós adquirimos sabedoria e conhecimento e enxergamos e ouvimos e sabemos o que é justo e injusto, o que é bom e o que é ruim, o que é doce e o que é insípido… E pelo mesmo órgão nos tornamos loucos e delirantes, e medos e terrores nos assombram…Todas essas coisas nós temos de suportar do encéfalo quando não está sadio… Nesse sentido, opino que é o encéfalo quem exerce o maior poder sobre o homem.
— Hipócrates, Sobre a Doença Sagrada (Séc. IV a.C.)