NIKE MIND: O QUE ESTÁ POR TRÁS DO MARKETING À LUZ DA NEUROCIÊNCIA? uma nova era para o desempenho esportivo ou uma nova era para o marketing esportivo?

Como você já deve ter ouvido ou visto na internet, redes sociais de atletas, de treinadores, profissionais do esporte e também os ligados às áreas do marketing, comunicação e outros setores da sociedade, a Nike está lançando, com uma poderosa campanha de publicidade, uma nova categoria de tênis com o Nike Mind 001 (e o Mind 002), focada no que ela chama de “Performance Mental”.

De acordo com a empresa o produto foi desenvolvido por mais de 10 anos, sugerindo que este tenha sido concebido com extremo rigor cientifico, incluindo e integrando diversas áreas do conhecimento. Lançado oficialmente no início de 2026, a Nike afirma que o calçado não foi desenhado para correr mais rápido, mas sim para ser usado nos momentos de pré e pós-competição, visando, na linguagem popular, o “reset” mental e o foco. Ou seja, recuperação, foco, redução da ansiedade competitiva e melhora do desempenho. Portanto, o que a Nike propõe e está pregando é que o tênis tem foco no sistema nervoso central e no sistema que chamamos de propriocepção.

O argumento é que como o pé (planta) é uma área rica de mecanorreceptores (corpúsculos de Meissner e Pacini, por exemplo) – grande densidade de mecanorreceptores – ao caminhar, aqueles 22 nós de espuma do tênis pressionam pontos específicos e a estimulação tátil envia e amplia o fluxo de sinais para o que chamamos de córtex somatosensorial (lá no cérebro), ou seja, a área que recebe estes estímulos e que desta forma o sistema amplificaria a sensação de contato. Assim, esse sistema de nós funcionaria como um sistema de pistões. Ou ainda, essa sensação ou a possível ativação ampliada, funcionaria como um “prime” ou estímulo adicional, que melhoraria a consciência corporal e induziria respostas motoras mais rápidas e precisas e o “foco mental”.

De acordo com o que vem sendo divulgado pela empresa, a sustentação destes efeitos se baseia na ideia de que quando você usa um calçado comum, seu cérebro “desliga” a percepção do pé e há o que chamamos na neurobiologia de habituação. Por outro lado, os nós independentes do calçado da Nike, criariam um padrão de pressão irregular, estimulando o sistema corpo-mente a manter a rede somatossensorial ativa. Além disso, também ajudaria a reduzir distrações, tirando o foco do externo. Um argumento utilizado é que pesquisas demonstram que estímulos táteis dinâmicos (como os da Nike) são superiores a estímulos estáticos (como uma palmilha de massagem fixa) para manter o cérebro em estado de alerta.

Do ponto de vista da neurofisiologia faz sentido, e a propaganda deles mostra supostos estudos com eletromiografia que seriam usados para verificar mudanças na atividade muscular; e também coleta de dados com espectroscopia no infravermelho próximo, que é uma das técnicas de neuroimagem que usamos para avaliar a hemodinâmica cerebral, ou seja, mudanças na oxigenação e fluxo cerebral que se relaciona com mudança na ativação e atividade de regiões cerebrais (no caso, possivelmente, examinando áreas como córtex somatossensorial ou outras áreas corticais frontais, motoras e não motoras).

A divulgação traz também informações de que a Nike criou um departamento de pesquisa para este fim – Mind Science Department. E que estas tecnologias de neuroimagem portáteis teriam sido utilizadas para validar o produto. E ainda, que a atividade cortical foi analisada em atletas e foram encontrados padrões associados ao relaxamento e correlatos de estado de alerta ou prontidão com o uso do calçado. A Nike também alega que sua equipe de pesquisadores mostrou que os estímulos táteis constantes dos “pistões” estimulam o cérebro a monitorar ativamente a interface corpo-solo, o que aumentaria a consciência interoceptiva, ajudando o atleta a “sentir-se” no próprio corpo, o que é fundamental para a regulação emocional e redução da ansiedade pré-competitiva. Outros possíveis mecanismos estariam associados a alterações da atividade cortical e da hemodinâmica cerebral em regiões do córtex pré-frontal envolvidas com hiperatividade e controle da ansiedade.

Mas se de fato o mecanismo que eles criaram induz e amplia estas respostas, com um certo grau de certeza, ainda é difícil de se analisar, pois até o momento a comunidade cientifica em geral não teve acesso aos estudos dos pesquisadores da Nike. Ou seja, deve ser feita a ressalva de que embora existam dados internos coletados pelos pesquisadores da Nike, a maioria das evidências ainda não foi publicada em periódicos científicos revisados por pares (peer-review) e os dados não foram divulgados abertamente para análise da comunidade. Portanto, para a comunidade acadêmica, o “rigor” é visto com cautela.

Essa é a zona cinzenta entre o marketing e a ciência, mesmo que as informações sejam de que a Nike investiu mais de 10 anos em pesquisa para este projeto e que o uso de ferramentas como EEG e fNIRS indica um esforço real de mapeamento neurofisiológico, e ainda, que a equipe envolve neurocientistas de renome, continuemos com aquele famoso jargão cientifico que “corre” nos corredores dos ambientes acadêmicos: okay, but show me the apples! uma expressão metafórica que soa como um apelo à evidência empírica, pedindo que o pesquisador mostre os dados reais. É a lógica e o raciocínio cientifico clamando pelos dados e observações (as “maçãs”) para validar ou refutar uma hipótese. A comunicação “informal” de resultados de projetos de pesquisa, sejam como esse da Nike, ou de projetos acadêmicos, de mestrado ou doutorado, por exemplo, sem que a comunidade possa analisar os resultados, verificar a robustez do delineamento experimental e reduzir qualquer incerteza acerca da integridade ou fraqueza metodológica do estudo, sempre soará como insuficiente e com o risco ampliado para interpretações precipitadas.

Porém, que o apelo é forte e que os mecanismos neurofisiológicos fazem sentido não dá para negar. Também não dá para negar, que a propaganda é espetacular, e que a neurociência por trás do marketing traz ótimos resultados. Já estou com muita vontade de testar e quem sabe, ter um desse no meu pé.