O episódio 4 da série Adolescência, da Netflix, intitulado “O Aniversariante”, mostra a família Miller lidando com a prisão de Jamie, acusado de matar uma colega de escola. Embora insista em sua inocência, a polícia busca a arma do crime e investiga amigos e escola em busca de respostas, sem sucesso. Ao final, Jamie hesita, mas decide se declarar culpado, revelando a complexidade emocional e social por trás de sua trajetória.
A partir desse ponto, e à luz da neurociência, torna-se possível pensar em estratégias que possam mitigar os efeitos colaterais dessa fase da vida, marcada por intensas mudanças hormonais, emocionais, estruturais e funcionais no cérebro. Uma dessas estratégias é o esporte.
A prática esportiva, quando realizada em um ambiente apropriado e institucionalizado, pode ser uma poderosa aliada na redução dos efeitos da vulnerabilidade durante a adolescência, pois a prática do esporte em um ambiente apropriado pode promover melhorias em diferentes dimensões cognitivas, como por exemplo, na atenção e concentração, na tomada de decisão, na velocidade de processamento cerebral. Além disso, a prática regular do esporte, em ambiente apropriado, reconhecido pelo adolescente como seguro e no qual este identifica relações de pertencimento, vai colaborar com a regulação emocional, e ainda, podendo influenciar positivamente em hábitos fundamentais neste período sensível, como o sono, em particular na qualidade e padrão
Ademais, esta interação prática esportiva, ambiente, individuo (adolescente) promove e reforça inclusão social e comportamentos cognitivos e sociais saudáveis. Tem sido demonstrado que o desenvolvimento das funções sociais e executivas pode refletir tanto a maturação cerebral quanto mudanças ambientais, como alterações no ambiente de moradia e nos grupos de amizade. Pesquisas neste sentido vêm revelando que fatores ambientais contribuem com um percentual elevado da variância nos resultados de tarefas cognitivas relacionadas às funções executivas em adolescentes, indicando que fatores ambientais influenciam as diferenças individuais. Como já descrito nos textos anteriores, dos episódios 1, 2 e 3, as funções executivas e as habilidades relacionadas são fundamentais para que o indivíduo atue com responsabilidade, regule suas emoções e tome decisões de forma adaptativa.
Portanto ao proporcionar a inclusão do jovem em um ambiente favorável, também estamos oportunizando ambiência para a o desenvolvimento de comportamentos que podem não somente proporcionar uma vida de mais qualidade e boas escolhas ao jovens, mas também, como vemos na série, pode ser fundamental para que em momento de pressão e de dificuldade, o jovem tenha recursos para tomar decisões, que o distanciem de bifurcações que em última instancia podem mudar o rumo de sua vida e de todos ao seu redor. Como no caso do Jamie.
Outra questão é a aceitação social, pois durante a adolescência, a busca por aceitação e a exploração de novos contextos são tendências naturais e adaptativas. São mecanismos importantes para a integração social e fazem parte do desenvolvimento evolutivo. No entanto, a direção que esses impulsos tomam depende do ambiente onde o jovem está inserido. Ainda, é importante considerarmos que o processo de desenvolvimento e maturação cerebral, mesmo quando o jovem encontra ambiente e ambiência para um desenvolvimento saudável, é gradual e incompleto durante grande parte da adolescência, o que torna os jovens mais propensos a atos impulsivos ou erros de julgamento. O aumento das demandas escolares e sociais exige maior autorregulação e controle cognitivo, justamente em uma fase em que essas funções ainda estão em consolidação. Na ausência de suporte emocional, orientação e oportunidades construtivas, essas tendências impulsivas podem ser canalizadas para comportamentos de risco ou socialmente prejudiciais. Já em um ambiente estruturado, como o oferecido pelo esporte, esse mesmo sistema de recompensa, altamente sensível na adolescência, pode ser utilizado para promover o desenvolvimento saudável.
Além disso, quando reforços sociais positivos, como elogios, reconhecimento por conquistas e pertencimento a um grupo, são oferecidos dentro de um ambiente construtivo, o cérebro adolescente responde de maneira otimizada. Isso favorece a plasticidade cerebral adaptativa, o refinamento das redes neurais e a consolidação do controle cognitivo maduro. Portanto, o episódio 4 nos convida a refletir: o que poderia ter mudado a trajetória de Jamie? Inserir adolescentes em ambientes que promovam experiências positivas, como o esporte, pode ser um caminho real de transformação, neurobiológica, social e emocional.
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O homem deve saber que de nenhum outro lugar, mas apenas do encéfalo, vem a alegria, o prazer, o riso e a diversão, o pesar, o luto, o desalento e a lamentação. E por isso, de uma maneira especial, nós adquirimos sabedoria e conhecimento e enxergamos e ouvimos e sabemos o que é justo e injusto, o que é bom e o que é ruim, o que é doce e o que é insípido… E pelo mesmo órgão nos tornamos loucos e delirantes, e medos e terrores nos assombram…Todas essas coisas nós temos de suportar do encéfalo quando não está sadio… Nesse sentido, opino que é o encéfalo quem exerce o maior poder sobre o homem.
— Hipócrates, Sobre a Doença Sagrada (Séc. IV a.C.)