Episódio 3: Sessão com a Psicóloga

Esse é o episódio mais íntimo e revelador. A conversa entre Jamie e a psicóloga expõe traumas, frustrações e confusões emocionais. A neurociência mostra que as experiências emocionais da infância e adolescência moldam circuitos neurais, especialmente nas áreas límbicas (como o hipocampo e a amígdala). A neuroplasticidade nessa fase é intensa, e vivências dolorosas ou negligência emocional promovem fortalecimento dessas redes neurais. Além disso, a ausência de vocabulário emocional adequado (por ainda estarem formando conexões com o córtex pré-frontal ventromedial) dificulta a autorregulação e a comunicação de sentimentos.

Ao mesmo tempo, Jamie continua a buscar um reconhecimento que não chega; ao mesmo tempo explicita a imagem de alguém que se vê como feio, alvo de ofensas e bullying, e que recorre à performance de uma masculinidade violenta. Será que o faz por escolha? ou, como parece transparecer na série, o faz, reproduzindo padrões dos impulsos explosivos paternos? o ambiente moldando o cérebro e portanto, o jovem? O comportamento decorrente de uma aceitação de característica e atitude típica de uma geração, algo quase invisível, ou talvez “somente pactuado” por nossa sociedade, um quase dogma fadado ao fracasso, mas ainda assim transmitido e elaborado no cérebro em desenvolvimento e no comportamento espelhado dos jovens?

Durante a adolescência, o cérebro passa por um período de remodelação, que afeta diretamente o sistema de recompensa, um conjunto de estruturas cerebrais envolvidas no comportamento motivado, prazer e tomada de decisões relacionadas à recompensa percebida.  Entre essas estruturas, destacam-se o estriado ventral, o núcleo accumbens e as vias dopaminérgicas mesolímbicas e meso-frontais, que se tornam particularmente mais sensíveis nessa fase do desenvolvimento. Essa hiperresponsividade do sistema dopaminérgico significa que os adolescentes são neurologicamente inclinados a buscar experiências novas, intensas e socialmente valorizadas. A masculinidade violenta é uma atitude socialmente valorizada? o sendo, induz uma reprodução pelo jovem deste comportamento na busca de uma recompensa de inserção e aceitação social?

Estudos de neuroimagem funcional (fMRI) demonstram que há uma hiperreatividade estriatal a contingências de recompensa em adolescentes, associada a um aumento da sinalização dopaminérgica meso-frontal. Essa sinalização está diretamente relacionada a mecanismos de plasticidade neural, os denominados potenciação e depressão de longo prazo (LTP e LTD), bem como à proliferação de terminais axonais dopaminérgicos nessa região, indicando que a adolescência pode ser um período de plasticidade particularmente acelerada. Desse modo, diferente dos adultos, cujo sistema de recompensa tende a ser também regulado pelo córtex pré-frontal, responsável por ponderar riscos e regular impulsos, os adolescentes ainda estão em processo de maturação dessa região cortical, o que reduz a eficácia desse “freio” ou “contrapeso regulador”. Essa condição relacionada à maturação das estruturas subcorticais e corticais contribui para uma maior impulsividade e tomada de decisões emocionalmente guiadas.

Além disso, o sistema de recompensa adolescente responde de maneira amplificada a estímulos sociais, como o ganho de status entre os pares ou a evitação da exclusão social. A presença de amigos, ou hoje em dia, a quase certeza de que seus atos serão de alguma forma expostos e avaliados, pode intensificar a atividade no estriado ventral diante de situações de risco, o que pode explicar pelo menos em parte a maior prevalência de comportamentos arriscados em contextos sociais. 

É importante frisar que embora esses mecanismos e consequentemente, comportamentos, estejam frequentemente destacados pelos riscos associados, como exposto na série, esses mesmos mecanismos representam uma adaptação. A busca por aceitação social e a exploração de novos contextos são fatores essenciais à sobrevivência e integração em grupos. Hoje, porém, quando não há suporte emocional, orientação adequada e oportunidades salutares ou construtivas, essas tendências podem ser canalizadas para caminhos prejudiciais.

O episódio 3, pode ser visto como um motivador para a discussão, considerando a sensibilidade do sistema de recompensa adolescente, de que esses mecanismos podem representar um recurso para o desenvolvimento saudável, quando bem direcionados. Adolescentes respondem a reforços sociais positivos, como os que Jamie tenta receber (elogios, reconhecimento por conquistas) e podem ser utilizados em conjunto com o direcionamento do jovem para a inclusão em grupos com valores construtivos. Favorecer experiências positivas e socialmente reforçadoras podem contribuir significativamente para a plasticidade cortical adaptativa, o refinamento das redes neurais e a consolidação do controle cognitivo maduro.